Alegria

No dicionário Michaellis, as duas primeiras definições de alegria são: “1 – Estado de contentamento ou prazer moral; júbilo, regozijo. 2 – Acontecimento agradável, feliz.”

A alegria é a emoção básica mais ligada a uma ideia de sentimento positivo. Ela geralmente está ligada a sentimentos de prazer e felicidade e tem uma função muito importante, a de incentivar ações que são benéficas para nós mesmos. Quando ficamos alegres ao conquistar algo importante, realizamos algo muito desejado, ou até mesmo quando nos relacionamos socialmente, estamos recebendo do nosso corpo um reforço positivo, ou seja, um incentivo para continuarmos buscando ações e atitudes que nos tragam essa mesma sensação de bem estar e felicidade. É um reforço natural do corpo para incentivar nossas ações.

A alegria, porém, não é um sentimento perene, ela não é constante. Se a alegria fosse constante nós não a perceberíamos. Sendo assim, precisamos lembrar o quanto nossas outras emoções são importantes até mesmo para que possamos experienciar a alegria. Muitas vezes temos medo de experimentar os sentimentos que nos afetam, sejam de medo, tristeza, dor, sofrimento… e por acharmos difícil encarar esses sentimentos, preferimos nos distrair com coisas supostamente alegres. Se passamos a buscar momentos prazerosos o tempo todo e a qualquer custo, corremos o risco de abrir mão de coisas essenciais para nós, como nossa ética ou nossos valores pessoais. Além disso, muitas vezes um estado de constante alegria pode ser visto como superficialidade, porque pode demonstrar que não estamos dando espaço para o aparecimento de outras emoções tão essenciais para nossas vidas.

Um bom exemplo disto acontece no filme divertidamente. A animação se passa dentro da cabeça de uma adolescente, e os personagens que controlam as ações e sentimentos de Riley são as emoções: alegria, tristeza, nojinho, medo e raiva. A personagem da alegria está sempre tomando a liderança no painel de controle, e tenta evitar a todo custo que a tristeza tenha qualquer participação na sala de comando, pois entende que não é bom para Riley sentir essa emoção. No entanto, podemos perceber que a própria personagem Alegria não está sempre alegre, e que existe um esforço em buscar a distração para evitar os outros personagens (ou seja, as outras emoções). Apenas quando a Alegria consegue experimentar e aceitar sua tristeza é que ela entende a importância desse sentimento para a vida da adolescente. Muitas vezes o nosso sentimento de alegria vai aparecer ao nos permitirmos sermos acolhidos por pessoas queridas quando enfrentamos alguma dificuldade. Ou ao experimentarmos uma comida que gostamos muito, mas que não podemos comer sempre. A alegria pode aparecer depois de um tempo de muito esforço dedicado a um objetivo específico, e assim por diante. Ou seja, a alegria está relacionada com sua própria falta, e é assim que conseguimos percebê-la.

Não sentir alegria o tempo todo não significa portanto que não somos felizes ou alegres. Alegria e felicidade são coisas diferentes. A alegria é uma emoção, um estado momentâneo que geralmente está ligada a acontecimentos pontuais e ao êxtase. A felicidade é um estado intrínseco, associado ao bem estar e que não possui uma definição exata, como está ligada aos sentimentos, pode ter um sentido diferente para cada pessoa. Dessa forma, alguém pode ser feliz e ter momentos onde não se sente alegre. Ou até mesmo ter demonstrações de alegria e não necessariamente se considerar uma pessoa feliz.

Se por um lado é importante não mascarar nossos sentimentos que são difíceis de lidar, com a alegria, por outro, é importante se permitir sentir alegria “apesar de”. É impossível falar de sentimentos e emoções sem considerar o contexto sócio histórico que vivemos. Hoje falamos muito da “positividade tóxica”, um termo utilizado para se referir ao movimento que vemos surgir no mundo atual, onde não podemos ficar tristes. Onde precisamos ser gratos e “tirar algo bom” de qualquer situação. Esse movimento muitas vezes é o que nos leva ignorar nossos sentimentos de raiva, tristeza, angústia… É importante acolher todas essas emoções, porém, é preciso olhar para a alegria também como um movimento de resistência. Ou seja, permitir que bons sentimentos apareçam, apesar do contexto.

Se entendemos que a alegria não é constante, e que ela está intimamente ligada com nossos outros sentimentos, podemos também nos permitir senti-la, mesmo que estejamos em um contexto de dor, ou de sofrimento, porque a alegria pode aparecer em episódios, pode ser um momento de alívio em meio a um contexto difícil. Permitir o aparecimento da alegria pode ser o que vai dar sentido aos nossos enfrentamentos. É importante darmos espaço para a potência da alegria, assim como Catalina (9 anos), no livro ‘A casa das estrelas’, de Javier Naranjo, que define a alegria como “A força de ser e de sentir.”

Texto produzido pela psicóloga: Caroline Ribeiro

Referências:

  • Livro: A casa das estrelas: o universo contado pelas crianças. – Javier Naranjo
  • https://exame.com/blog/o-que-te-motiva/existe-diferenca-entre-felicidade-e-alegria/
  • Filme: Divertidamente (2015) – Disney / Pixar
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Mariza

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